Criada como residência de férias, a propriedade em Corrêas atravessou mudanças de proprietários, reviravoltas financeiras e uma recuperação paisagística antes de se transformar em hotel e condomínio de alto padrão.
Antes das casas contemporâneas, do hotel boutique e das experiências de bem-estar, havia uma residência particular e um jardim que parecia prolongar-se pelas montanhas. A Fazenda Marambaia, em Corrêas, Petrópolis, no Rio de Janeiro, guarda uma história em que arquitectura, paisagismo e mercado financeiro se encontram. Para a compreender, é preciso recuar aos anos 1940, quando Odette e Júlio Monteiro escolheram aquele cenário para a sua casa de férias.
As fontes disponíveis dizem pouco sobre a trajectória pessoal do casal. A sua presença na história ficou registada sobretudo pela propriedade que encomendaram: um casarão projectado por Wladimir Alves de Sousa, cercado por jardins de Roberto Burle Marx. A obra viria a tornar-se conhecida no repertório do paisagista como Residência Odette Monteiro, nome que permanece nos registos da sua fundação.
Um episódio ajuda a compreender a relação dos Monteiro com o projecto. Segundo relato publicado pelo Papo de Paisagista, Júlio dispensou a análise do anteprojecto dos jardins, tamanha a confiança em Burle Marx. A liberdade permitiu ao artista trabalhar a relação entre vegetação, água, pedras e relevo. O resultado recebeu um prémio na Bienal de São Paulo de 1953. Não era apenas um jardim para ser visto da varanda: era uma paisagem para percorrer.
O banqueiro que fez da fazenda a sua casa
Décadas depois, a Marambaia entrou na vida de Luiz Cezar Fernandes. A sua trajectória tinha começado longe dos salões da propriedade. Em adolescente, trabalhou como contínuo no Bradesco, entregando correspondência e aprendendo a rotina bancária. Em entrevista à revista piauí, contou que procurava tarefas adicionais depois do expediente. Aos 16 anos, já era procurador; aos 17, foi transferido para o Rio.
Na década de 1970, tornou-se sócio de Jorge Paulo Lemann no Garantia. Em 1983, fundou o Pactual com André Jakurski e Paulo Guedes. A carreira foi marcada pela criação de negócios, mas também por divergências sobre os seus rumos. No Pactual, defendia a expansão para o retalho bancário, enquanto outros sócios preferiam manter o foco nos investimentos. Problemas financeiros nas suas empresas pessoais somaram-se às disputas societárias, e Fernandes deixou definitivamente o banco em 1999.
Quando passou a viver na Marambaia, em 1987, ainda estava em plena expansão da sua carreira. A fazenda recebeu a sua colecção de arte e tornou-se residência e, posteriormente, espaço de trabalho. Burle Marx e Haruyoshi Ono foram chamados para novas intervenções, com acréscimos aos jardins, quedas de água e um painel cerâmico.
Depois da saída do Pactual, Fernandes tentou reconstruir a sua actividade empresarial dentro da própria fazenda. Antigos estábulos passaram a abrigar salas de reunião; o hangar recebeu uma operação de telecomunicações. Entre compromissos, acompanhava a criação de ovelhas Santa Inês. A Marambaia era, ao mesmo tempo, casa, negócio e lugar de recomeço.
A mudança de destino
A passagem para o empreendimento actual não nasceu de uma simples decisão de transformar a residência em hotel. Foi precedida por dificuldades financeiras e disputas patrimoniais. Em 2010, Fernandes recorreu a André Esteves, o seu antigo colaborador no Pactual, para evitar a perda da propriedade perante uma dívida.
Em 2018, O Globo já noticiava um projecto imobiliário na área. Segundo o relato de Fernandes publicado na ocasião, a construtora envolvida era sócia de um fundo administrado pelo BTG Pactual. Este registo situa a ligação do banco com a transformação da fazenda, embora não permita afirmar que a instituição seja hoje a sua proprietária directa.
A nova fase ganhou forma com a recuperação da sede e dos jardins. No final de 2020, a Casa Marambaia começou a receber hóspedes; em 2021, o condomínio conduzido pela incorporadora Pilar já tinha as suas primeiras casas comercializadas. A hotelaria, inicialmente sob gestão da Promenade, e a implantação residencial avançavam em paralelo. A antiga propriedade particular passava a reunir habitação, alojamento e gastronomia.
A oportunidade encontrou um público em transformação. A pandemia ampliou a procura por residências fora dos grandes centros, inclusive para uso permanente. Na Marambaia, a proposta era oferecer a experiência da casa de campo acompanhada de infraestrutura e serviços, aproveitando uma paisagem cuja identidade já estava consolidada muito antes dos lançamentos imobiliários.
Alto padrão sem perder a identidade
O condomínio desenvolveu-se por etapas. Projectos posteriores passaram a contar com arquitectos como Thiago Bernardes e Gisele Taranto, reforçando o posicionamento de alto padrão. A arquitectura contemporânea entrou nesta história com uma proposta de conforto e integração com o entorno, associada a desporto, gastronomia e a um modo de vida menos apressado.
Hoje, a Fazenda Marambaia apresenta o seu conceito comercial como healthness farm: habitação ligada à natureza, à actividade física e ao bem-estar. Trilhos, espaços de convívio, práticas desportivas e opções de relaxamento compõem a experiência anunciada, enquanto a Casa Marambaia concentra alojamento e gastronomia. Cada operação possui as suas próprias condições de acesso e utilização.
A mudança é significativa: o refúgio de uma família tornou-se morada de muitas outras. Mas o principal diferencial não nasceu com o condomínio. Está no encontro entre o jardim, o casarão e as montanhas — uma relação construída ao longo de décadas. O futuro da Marambaia dependerá também de preservar esse equilíbrio: permitir novos usos sem tornar irreconhecível o lugar que os tornou possíveis.

