
Guerra redesenha mapa de investimentos. Como fica o mercado imobiliário?
Guerra redesenha mapa de investimentos. Como fica o mercado imobiliário? Conflito eleva a inflação, altera o fluxo de capital e reforça a procura por ativos defensivos como o real estate, logística e data centres Folha de São Paulo Letícia Furlan Repórter de Mercados Publicado a 1 de maio de 2026 A escalada do conflito entre o Irão e os Estados Unidos começa a redesenhar o mapa global de investimentos e já altera a forma como o capital está a ser alocado em sectores como o real estate e a infraestrutura. Um estudo do GRI Institute, baseado num encontro com mais de 100 líderes globais, aponta que o mundo entrou num novo ciclo marcado por inflação elevada, crescimento mais fraco e maior aversão ao risco. O gatilho foi a sequência de ataques no final de fevereiro de 2026 e a interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio global. O resultado é um choque de oferta que pressiona a energia, encarece cadeias produtivas e cria um ambiente típico de estagflação — combinação de inflação elevada com atividade económica mais fraca. Nesse cenário, a reação dos investidores tem sido direta: migrar para proteção. Segundo o estudo, 53% dos participantes indicam preferência por mercados líquidos e consolidados nos próximos 12 a 18 meses. Os Estados Unidos voltam ao centro das estratégias globais, enquanto a Europa e o Reino Unido enfrentam revisões negativas de crescimento, pressionados pela dependência energética. É neste rearranjo que o Brasil começa a ganhar espaço. “O Brasil posiciona-se como um dos principais beneficiários do movimento de flight to safety global”, afirma Gustavo Favaron, CEO global do GRI Institute. A combinação de independência energética e distância geopolítica do conflito coloca o país numa posição mais defensiva e potencialmente mais atractiva para o capital internacional. Setores que ganham força No recorte sectorial, o movimento não é uniforme. O relatório aponta que o real estate mantém o seu carácter defensivo, mas com uma leitura mais seletiva. O segmento residencial surge como o principal porto seguro. Historicamente, funciona como proteção contra a inflação, por estar ligado a uma procura básica e menos sensível ao ciclo económico. Na prática, contratos indexados permitem repassar aumentos de preços, preservando o valor do ativo. Outro vetor é a logística, impulsionada pelo redesenho das cadeias globais via nearshoring . A reorganização do comércio internacional exige mais infraestrutura, especialmente em países com capacidade de exportação de commodities — caso do Brasil. Já os data centres surgem como uma nova fronteira. A procura por inteligência artificial e computação intensiva abre espaço para investimentos em infraestrutura digital, com o Brasil a beneficiar da oferta de energia renovável e abundante. “O país tem potencial para se tornar um polo relevante de infraestrutura digital”, diz Favaron. Infraestrutura, que antes era vista apenas como ativo defensivo, passa a ocupar um papel mais estratégico. A combinação de transição energética, reorganização produtiva e avanço da IA coloca o segmento como vetor de crescimento — e não só de proteção. O novo risco do sector Se por um lado há oportunidades, por outro o nível de exigência aumentou. O conflito no Médio Oriente afeta diretamente duas variáveis centrais do sector imobiliário: o custo do dinheiro e o custo da construção. Com inflação pressionada, os juros tendem a permanecer elevados por mais tempo, encarecendo o financiamento e reduzindo o apetite ao risco. Ao mesmo tempo, os insumos importados ficam mais caros, o que exige revisões nos cálculos de viabilidade. “A análise de risco passou a ser muito mais sensível a fatores geopolíticos, que deixaram de ser eventos raros”, afirma Favaron. Na prática, isso traduz-se em três mudanças: maior margem de segurança nos projetos, atenção redobrada ao custo de capital e foco em ativos bem localizados, com contratos de longo prazo. Apesar da volatilidade, o diagnóstico do GRI é que o real estate tende a ganhar relevância em cenários como o atual. A razão é simples: trata-se de um ativo físico, com capacidade de repasse da inflação — algo que nem sempre acontece com ativos financeiros. “O imóvel preserva valor. Em momentos de crise, o investidor migra para o tijolo porque a procura por habitação, logística e energia não desaparece”, diz Favaron.
