6 min de leitura
A serra do Rio que sempre soube o seu valor
Entre palácios, casas de férias e propriedades rodeadas pela Mata Atlântica, Petrópolis atravessou quase dois séculos como morada de famílias que tinham liberdade para escolher onde viver. Essa história ainda influencia o mercado imobiliário de alto padrão da cidade. Petrópolis já era um endereço de prestígio muito antes de existir um mercado imobiliário organizado para o segmento de luxo. A cidade nasceu de uma preferência pessoal de D. Pedro I, transformou-se na residência de verão de D. Pedro II e, nas décadas seguintes, passou a acolher a aristocracia do Império, diplomatas, empresários, políticos e famílias influentes do Rio de Janeiro. Depois de se encantar com o clima e a paisagem da serra, D. Pedro I comprou, em 1830, a Fazenda do Córrego Seco. A propriedade seria herdada por D. Pedro II, que assinou, em 16 de março de 1843, o decreto que deu origem a Petrópolis. O Palácio Imperial começou a ser construído dois anos depois e tornar-se-ia a residência de verão preferida do imperador. ( Museu Imperial ) A escolha tinha uma lógica que continua reconhecível: proximidade com o Rio, temperatura mais amena, paisagem verde e distância suficiente da rotina da capital. A serra permitia mudar de ambiente sem abandonar a vida política, económica e social da Corte. À volta do palácio formou-se uma cidade preparada para receber. A temporada imperial levava para Petrópolis titulares do Império, representantes estrangeiros e grandes proprietários. Registos reunidos pelo Instituto Histórico de Petrópolis mostram a passagem ou residência de numerosos barões, viscondes e condes, compondo uma aristocracia de veraneio que ocupou casas e palacetes nas zonas mais valorizadas da cidade. ( IHP ) Não se tratava apenas de passar alguns dias na serra. Construir ou manter uma casa em Petrópolis era também uma afirmação de posição social. A propriedade servia para receber convidados, organizar encontros e acompanhar a temporada da família imperial. Foi assim que a cidade criou, ainda no século XIX, uma cultura residencial que hoje seria chamada de segunda habitação. Entre os nomes mais representativos dessa época está Irineu Evangelista de Sousa, o Barão e depois Visconde de Mauá. Empresário ligado a bancos, caminhos de ferro, indústria e navegação, Mauá comprou em 1852 o terreno para a sua casa de verão em Petrópolis. Dez anos depois, o seu palacete já surgia nos relatos de viajantes como uma das residências marcantes da cidade. ( IHP ) A presença de Mauá ajuda a ampliar a leitura de Petrópolis. A cidade não foi frequentada apenas por nobres titulados ou membros da Corte. Também atraiu os novos detentores do capital brasileiro: banqueiros, industriais, comerciantes e famílias que construíram fortuna durante o Império e a República. Os apelidos de família mudaram, mas o hábito manteve-se. Na década de 1930, a imprensa ainda acompanhava com atenção a temporada petropolitana. O levantamento do Instituto Histórico sobre a revista A Noite Illustrada regista, numa edição de 1932, as residências de Luiz da Rocha Miranda e Octávio Guinle, dois apelidos associados à elite económica e social desse período. A mesma publicação mostrava palacetes, embaixadas e a movimentação dos veraneantes pela cidade. ( IHP ) Octávio da Rocha Miranda também participou na organização do antigo Sindicato de Turismo de Petrópolis, entidade dirigida em grande parte por veraneantes interessados em promover a cidade e organizar a sua temporada social. Entre os seus frequentadores estavam presidentes da República, diplomatas, escritores, cientistas e empresários. ( IHP ) Santos Dumont encontrou ali um endereço que combinava com a sua personalidade. Em 1918, comprou um terreno íngreme na Rua do Encanto e desenhou a sua própria casa de veraneio. “A Encantada” era pequena, funcional e engenhosa: mobiliário de múltiplo uso, escadas invulgares e soluções domésticas criadas pelo próprio inventor. A casa permanece como um retrato íntimo de alguém que poderia ter escolhido uma residência grandiosa, mas preferiu um projeto pessoal, rodeado pela paisagem de Petrópolis. ( Prefeitura de Petrópolis ) Na primeira metade do século XX, o Palácio Quitandinha levou a vida social da serra a outra escala. Inaugurado em 1944, foi um dos maiores hotéis-casino das Américas. Os seus salões receberam personalidades brasileiras e internacionais, entre elas Carmen Miranda e Walt Disney. Em 1947, o edifício acolheu a Conferência Interamericana para a Manutenção da Paz e da Segurança no Continente. ( Sesc ) O casino teve vida curta. O jogo foi proibido no país em 1946, e o Quitandinha acabou transformado em condomínio, mas o edifício permaneceu como uma lembrança concreta de uma época em que Petrópolis era, ao mesmo tempo, refúgio, palco político e destino de entretenimento. O endereço continua a fazer sentido O mercado atual é diferente, mas as razões que levam alguém a escolher Petrópolis mudaram menos do que parece. Para quem procura primeira residência, a cidade oferece uma vida urbana completa sem a escala de uma metrópole. Há escolas, serviços, hospitais, restaurantes, comércio e acesso ao Rio, mas também casas com jardim, ruas mais tranquilas e bairros onde a presença da mata ainda faz parte da rotina. A segurança pesa nesta decisão. No Anuário Cidades Mais Seguras do Brasil de 2025, levantamento privado elaborado a partir de dados do IBGE e do Ministério da Saúde, Petrópolis apareceu em primeiro lugar entre os municípios fluminenses com mais de 100 mil habitantes. O resultado não elimina as diferenças entre bairros, mas reforça uma perceção importante para famílias que avaliam deixar a capital. ( Jornal de Itaipava ) Na segunda habitação, o interesse é outro. A casa passa a organizar o fim de semana: o almoço que se prolonga, a lareira acesa, o jardim que amadurece, os quartos preparados para filhos e amigos. Não é um imóvel comprado apenas para ser visto. É uma propriedade que precisa funcionar bem e melhorar com o tempo. Itaipava concentra a face mais conhecida desse mercado, reunindo condomínios, gastronomia, comércio e vida social. Araras oferece uma ocupação mais reservada, com casas integradas no verde e projetos de arquitetura que aproveitam o relevo. Secretário ganhou espaço entre os compradores interessados em propriedades de campo, baixa densidade e maior privacidade. O Brejal preserva uma paisagem rural mais aberta, marcada por quintas, produção agrícola e propriedades afastadas do movimento dos centros comerciais. Nestas regiões, o alto padrão não depende necessariamente de ostentação. Pode estar num terreno bem localizado, na vista sem interferências, num jardim antigo, na arquitetura que respeita a paisagem ou na possibilidade de manter distância real dos vizinhos. Há ainda um fator difícil de medir em folhas de cálculo: continuidade. Muitos destinos imobiliários surgem rapidamente, apoiados em lançamentos, campanhas e novos polos de consumo. Petrópolis carrega uma história residencial anterior ao próprio conceito moderno de mercado de luxo. A cidade atravessou o fim do Império, a República, o encerramento dos casinos e diferentes ciclos económicos. Ainda assim, continuou a atrair famílias, empresários, artistas e compradores interessados em viver ou manter uma casa na serra. Quem compra um imóvel de alto padrão em Petrópolis não está a repetir a vida da antiga aristocracia. Está, porém, a responder a uma pergunta semelhante: onde é possível estar perto do Rio e, ao mesmo tempo, viver com mais espaço, temperatura mais agradável, natureza e privacidade? Há quase dois séculos, muita gente chegou à mesma resposta.
Saiba mais